OS 80 ANOS DA TOMADA DE PELOTAS PELO GENERAL ZECA NETTO

Cel Claudio Moreira Bento(x)


José Antônio Mattos Netto (1854-1948)

Gen Revolucionário de 1923 .

 

Um ataque de surpresa a Pelotas, ao alvorecer

 

Em 29 de outubro de 1923,numa segunda feira, no contexto da Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul, que durou 300 dias e contra o Presidente do Estado, Dr. Borges de Medeiros, o General Revolucionário José Antônio Mattos Netto (Zeca Netto), atacou Pelotas, de surpresa, ao alvorecer e a manteve sob seu controle por cerca de 6 horas, sem no entanto dominar a reação governista de contigente do 1 o Corpo Provisório abrigado na Sociedade Agrícola de Pelotas, ao comando do Capitão Orlando Cruz. Sociedade Agrícola (atual Consulati) situada entre a antiga Usina de Bondes da Light e a atual Escola Técnica Federal. Esta, na época, a antiga Escola de Artes e Ofícios que também abrigava um contigente governista do 1o Corpo Provisório da Brigada Militar.

 

Uma guerra de guerrilha, de cavalheiros, de movimento e psicológica

 

Vale lembrar conforme escrevemos em Canguçu reencontro com a História que esta revolução possuiu as seguintes características:

A primeira, apelo a tática da Guerra de Guerrilha, a estratégia do fraco contra o forte, aos moldes da Guerra à gaúcha, cabendo aos revolucionários fustigar, inquietar, confundir as forças do governo evitando por tudo serem cercadas e travarem um combate decisivo.

A segunda, a de uma Guerra Psicológica, traduzida pelo exagero das ações militares revolucionárias, quanto aos efetivos em presença, baixas e vantagens táticas e estratégicas sobre forças do governo. Na falta de armas e munições compatíveis para uma ação militar efetiva, Zeca Netto recorreu com a sua auto denominada 4a Divisão do Exército Libertador, à Guerra de Movimento, sempre fintando o adversário e mantendo-se bem informado sobre ele, evitando o combate, para permanecer ao máximo em ação. E conduziu muito bem esta estratégia nas serras dos Tapes e do Herval, ao ponto dos governistas que o perseguiam, sem o encontrar, o tratarem de "Zeca Veado" e os seu correligionários de "Condor da Serra dos Tapes."

Nas cidades, jornalistas revolucionários através da Imprensa se encarregavam de conduzir esta guerra psicológica, com bem sucedido marketing, e sobre o Governo Central, o do Estado e o povo, exagerando as reais possibilidades e os feitos dos revolucionários, tratados na época de bandoleiros pelo Presidente Dr Borges de Medeiros. E sempre anunciando ataques sobre determinados objetivos que não se concretizavam. Este seria um dos motivos a explicar a surpresa de seu ataque a Pelotas, há 9 dias do Armistício de 7 de novembro e a 49 dias da Paz de Pedras Altas, em 14 dezembro 1923.

A terceira foi uma característica de Guerra de Cavaleiros, em contraposição a Guerra de Bárbaros, a Guerra Maldita, a Guerra da Degola que havia sido a Revolução de 93, da qual foram veteranos, como governistas, ao que se sabe Zeca Netto, Juvêncio Lemos, Orlando Cruz e Francisco Vernetti e que serão aqui focalizados

 

Um retomada das tradições de Firmeza e Doçura, degoladas em 1893

 

Em 1923 seus líderes procuraram, ao máximo, no combate e na tribuna, honrar as tradições farroupilhas de Firmeza e Doçura, representadas no brasão farrapo por dois amores perfeitos que assim se traduziam. Em combate ou na tribuna, lutar com Firmeza, traduzida por bravura e garra .E depois do combate, Doçura, traduzida pelo respeito, como religião à vida, à família, à honra e a propriedade do vencido inerme. E em Pelotas isto se caracterizou em alguns casos como se verá.

 

Zeca Netto reedita em Pelotas ações de seu tio e ídolo militar General Netto

 

Zeca Netto nesta 3a tentativa, agora bem sucedida, de atacar Pelotas, reeditava, assim, feito de seu tio, General Antônio de Souza Netto que na Revolução Farroupilha, 87 anos antes, havia conquistado Pelotas, com a sua Divisão Liberal, depois da vitória de Seival, em 10 de setembro de 1836 e Proclamação da República Riograndense, no dia seguinte, em Campo do Menezes.

Divisão Liberal integrada por transformação do Corpo de Guardas Nacionais de Piratini, constituído por forças mobilizadas neste município em seus distritos da época de Bagé, Canguçu e Cerrito, e reforçada pelo Corpo de Lanceiros Negros Farrapos. Estes em grande parte mobilizados nas charqueadas de Pelotas.

Divisão Liberal que em Pelotas acantonou no recém inaugurado Teatro Sete de Abril. Na ocasião Antônio Netto prendeu o Major Manoel Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre, em sobrado na esquina seguinte do Clube Caixeral, na rua Félix da Cunha, depois de ameaçar o explodir com um barril de pólvora, o enviando preso para Porto Alegre, no barco prisão Presiganga, de onde mais tarde escapou e liderou a retomada definitiva de Porto Alegre aos farrapos.

Zeca Netto, era filho de Rafaela Mattos com um irmão do General Antônio Netto e sobrinho do Tenente Coronel honorário do Exército Theóphilo de Souza Mattos, nosso bisavô materno, que comandara um Corpo da Guarda Nacional de Canguçu na Guerra do Paraguai e que no ataque a Pelotas, em foco, alguns de seus netos acompanharam o primo Zeca Netto.

 

Conquistar Pelotas um antigo sonho do General Zeca Netto

 

Conquistar Pelotas, a 2a cidade do Estado e centro de operações do Governo do Estado fora um objetivo visado em três ocasiões pelos revolucionários para chamar a atenção do Brasil para a causa pela qual lutavam e tentar assim uma intervenção federal no Estado. Pelotas era um local com muitos adeptos a causa revolucionária e a ela forneciam armamentos, munições e informações preciosas sob o dispositivo defensivo militar governista. Informações que permitiram a Zeca Netto, desta vez, planejar e executar seu ataque sobre os objetivos que conhecia em detalhes. E julgam alguns com reforços recebidos em Pelotas no dia do ataque. E com a indiferença de muitos defensores de Pelotas, inclusive do intendente Cel Pedro Osório de que era mais uma ameaça de Zeca Netto como as duas anteriores a não se concretizar.

Entre atacar Bagé ou Pelotas segundo Zeca Netto, em suas Memórias, sua decisão se baseou nas seguintes considerações estratégicas:

"Bagé é uma praça de guerra e ponto de defesa de nossas fronteiras desde os tempos do Brasil Colônia. E Pelotas é uma cidade central e comercial e que se encontra no momento sem defesa .Pois quem a defende com suas metralhadoras é o Ten Cel Emílio Massot que por ordem superior seguiu para a região serrana para completar o cerco da força do General Honório Lemos."

Pelotas ficara então defendida por uma ala do 1o Corpo Provisório da Brigada Militar comandada pelo Major Aldrovando Leão, ex sargento do Exército que cursara a Escola de Sargentos . O vice intendente do 1 o distrito de Pelotas era o Tenente Francisco Jesus Vernetti, comandante da Guarda Municipal. E ambos tombariam mortos na defesa de Pelotas. A defendia também a Guarda Republicana e a Policia Civil.

 

Os efetivos em presença no assalto e na defesa de Pelotas

 

Segundo colheu o Cel Aldo Ladeira Ribeiro e publicou em seu Esboço da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, em 1953, inclusive a parte de combate do 1o Corpo de Provisório do Capitão Orlando Cruz que substituiu o Major Aldrovando Leão e, mais o telegrama do intendente Cel Pedro Osório ao presidente do Estado Dr Borges de Medeiros, o efetivo encarregado da defesa de Pelotas era de 121 homens contra, segundo Zeca Netto em suas Memórias (p.100), "seus 250 atacantes bem armados e com 50.000 tiros depois de reforçado, em caminho, no município de Canguçu, com um piquete de 30 homens decididos e valentes ,com 30 fuzis Mauser e 30.000 tiros.’"

Até então a maioria de sua força ,bem montada, trazia como armamento uma variedade enorme do que conseguiram reunir em suas casas. Alguns fuzis antigos, revolveres, armas de caça, facas, adagas, boleadeiras e até lanças improvisadas de madeira de lei, armando alguns piquetes. E mais um bom estoque de cravos de ferraduras para ferrar a cavalhada, o que era feito nas ferrarias ao longo do itinerário por ferradores de sua força.

O efetivo defensivo foi assim distribuído, segundo o Cel Pedro Osório:

"Ala do 1o Corpo Provisório na Sociedade Agrícola 80 homens

1o Posto Policial , atrás da Intendência 13 homens .Comandante Tenente Francisco Jesus Vernetti

2o Posto Policial 6 homens. Chefe comissário Arruda, no porto ao lado da Alfândega

3o Posto Policial 7 homens. Chefe comissário Olímpio, no atual albergue noturno na rua padre Felício.

Efetivo do Corpo de Bombeiros 13 homens, ao comando do Tenente Luís Felipe Abarahy

A Guarnição Federal era constituída pelo 9o Batalhão de Caçadores do Exército que aquartelava no edifício hoje ocupado pelo Batalhão da Brigada Militar e tinha ordem de ficar neutro na contenda, na proteção do patrimônio federal e bancos .Seu comandante era o Ten Cel Arthur Cantalice .

Servia neste batalhão como aspirante, Cícero de Góes Monteiro, irmão do mais tarde General Aurélio de Góes Monteiro, comandante militar da Revolução de 30. Cícero na Revolução seguinte de 32, pereceu em combate no Vale do Paraíba, como oficial do 9o Batalhão de Pelotas, para lá destacado para combater revolucionários paulistas. Ele presenciou, como neutro, o ataque a Sociedade Agrícola de seu observatório na Usina de Bondes.

 

Surge a oportunidade ideal para o ataque a Pelotas

 

A oportunidade esperada de tomada revolucionária de Pelotas surgiu no momento em que a 3a Brigada Provisória do Sul, ao comando do Cel Juvêncio Lemos se encontrava em Piratini e o Ministro da Guerra, General Setembrino de Carvalho, o Pacificador do século XX,(Revolta do Padre Cícero, Revolta do Contestado e Revolução de 23) e filho de Uruguaiana, enviado pelo Presidente da República, encontrava-se no interior do Estado em gestões positivas visando a Paz de Pedras Altas que terminou de conseguir de forma notável, segundo o Dr Sérgio da Costa Franco, em seu livro A Paz de Pedras Altas.

 

O violento combate de Canguçu Velho, 2 meses e meio antes

 

O sangrento combate de Canguçu Velho de 14 de agosto de 1923 na área das ruínas do antigo sobrado sede e mangueirão de pedra da antiga Real Feitoria do Linho Cânhamo do Rincão do Canguçu 1783/89, foi o mais violento da revolução, com 22 baixas fatais para os revolucionários e 6 para os governistas.

Combate que ocorrera há pouco mais de dois meses, entre forças de Zeca Netto e governistas ao comando dos coronéis Juvêncio Lemos e Hipólito Pinto Ribeiro. Este filho do General Hipólito Ribeiro.

Este combate havia reduzido a coluna de Zeca Netto, e a deixado desmuniciada e com sua cavalhada enfraquecida pelo inverno. E mortos em combate e entregues a guarda perpétua da comunidade canguçuense, onde até hoje se encontram seus restos mortais, mas esquecidos, o Major Álvaro Ribeiro Lemos, de Pelotas e o Tenente Jorge Edjalde de Porto Alegre.

O Cel Hipólito então mandou o Tenente Ernesto Ignácio Pinheiro, avô do historiador Cairo Moreira Pinheiro e que era o oficial de Dia, para sepultar os mortos no local onde tombaram, e num gesto cavalheiresco também os mortos revolucionários ali tombados, os quais, em 1951 foram mandados exumar pelo prefeito Conrado Ernani Bento e colocados sob a proteção de um cercado de arame numa encruzilhada junto a Canguçu Velho. E em 1974 fotografei o local tendo ao fundo dois filhos meus, hoje capitães de Fragata da Marinha do Brasil. Em data recente voltei ao local e constatei que aquele local originara um enorme cemitério, tendo ao lado uma igreja e não consegui identificar mais os túmulos dos mortos ali tombados.

 

A marcha de 45 dias de aproximação para o ataque a Pelotas

 

Em 14 de setembro, Zeca Netto operou junção na fazenda Capão Alto, em Bagé, com forças do General Revolucionário Estácio Azambuja.

Daí marcharam ao longo do itinerário Bagé, Lavras do Sul, São Gabriel, São Sepé e Caçapava, atingindo o arroio Irapuá, com suas águas crescendo, obrigando a coluna Zeca Netto a atravessá-lo, de pronto, e acampar na outra margem protegido da atuação adversária.

O General Estácio, perseguido pelo governo, na impossibilidade de atravessar o Irapuá, que estava a nado, margeou o arroio até se bater em Sevalsinho com forças do Governo e com sérias baixas em ambos.

Zeca Netto prosseguiu e foi reforçado pelo Coronel Coriolano de Castro, de Caçapava, homem que se singularizou por laçar com a mão esquerda e descendente de Dragões do Rio Pardo e biografado pelo historiador de Caçapava Arnaldo Luis Cassol e parente do saudoso amigo Humberto Castro Fossa, historiador .de Encruzilhada do Sul e ambos meus grandes companheiros no Instituto de História e Tradições do RGS.

Em 25 de setembro a Coluna Zeca Netto penetrou no município de Encruzilhada e, fintando, fizeram crer que atacariam a vila de Encruzilhada. Mas rumaram a noite para o Passo do Marinheiro no rio Camaquã, que foi atravessado numa balsa e em canoas e a cavalhada ,a nado, durante três dias.

Ai segundo Zeca Netto, "existia uma balsa e ele então improvisou com arame liso de cercas uma maromba, ou cabo guia, para a balsa ir e vir presa a uma argola à maromba. Registrou que no deslocamento saia chispas da maromba atritando na argola e sob a pressão de forte correnteza, ao ponto de queimar os arames. Numa travessia a balsa, com o rompimento da maromba foi rio abaixo, dando grande trabalho para a colocar em posição.

Dali, atingiram o município de Canguçu de onde, pelo Passo do Costa, atingiram Piratini no dia 7 de outubro, onde receberam em caminho reforços em , homens, cavalos e munições.

Em 14 de outubro, em Marcelino, na Serra das Asperezas, contraforte da Serra do Veleda, em Piratini, enfrentaram, sob a proteção de uma cerca de pedra, o Coronel Juvêncio Lemos. O General Zeca Netto, sem perder o objetivo – atacar Pelotas, rompeu o contato em direção a Sanga da Olaria, onde acampou.

De 15 a 24 de outubro deslocou-se pelo município de Canguçu, na região conhecida por Rincão dos Cravos, corruptela da expressão Rincão dos Escravos, por culpa de algum geógrafo improvisado que registrou a palavra sem a sílaba inicial. E em 25 penetrou no de Piratini. Em 26 transpôs o rio Piratini, por um falso passo Mangueira e foi acampar, em 27 de outubro, na Trapeira, no município de Canguçu, próximo de Morro Redondo.

No dia 28 de outubro, em marcha forçada, pela estrada da Cascata, atingiu a meia noite, no Passo do Salso, a Chácara do Dr. Francisco de Paula Amarante, distante 12 km de Pelotas.

Ali Zeca Netto expôs sua idéia de manobra. Ataque simultâneo de três objetivos, impedindo ligação e apoio recíprocos dos mesmos.

 

O desenvolvimento do ataque a Pelotas ao alvorecer

 

A Coluna Zeca Netto com base de partida para o ataque a Tablada, nas Três Vendas, iniciou o ataque simultâneo, às 5 horas de 29 de outubro, sobre três objetivos iniciais, a serem conquistados e isto sem serem pressentidos pela Policia Administrativa e surpreendendo .as defesas de Pelotas.

O Ataque Principal ao comando do Tenente Coronel Felipe Conca, progredindo pela Avenida Duque de Caxias e com o seu destacamento lançado sobre o Pavilhão da Sociedade Agrícola e prédio da Escola de Artes e Ofícios, na área hoje ocupada pela Escola Técnica Federal e que concentrava o grosso da defesa governista.

O Coronel Coriolano de Castro, progredindo pela rua Professor Araujo , até a ponte de Pedra, no arroio Santa Bárbara, foi lançado com a missão de apoiar

 

pela esquerda o Destacamento Tenente Coronel Conca, lançado sobre o Pavilhão da Sociedade Agrícola, entre a Usina e a atual Escola Técnica Federal .

O Major Adolfo Brockman para atacar o Posto Policial, no porto, depois de percorrer a estrada da Barbuda até as Três Vendas.

O Coronel Crespo, atuando com seu destacamento pelo centro, e progredindo pela rua 15 de novembro devia atacar a Intendência e o 1º Posto Policial atrás dela, ao lado da Escola de Agronomia Eliseu Maciel.

O Coronel Leônidas Damasceno foi lançado sobre o quartel do Corpo de Bombeiros no local até onde hoje se encontra e depois de progredir pelas ruas Barão de Santa Tecla ,Argolo, Marechal Deodoro, General Telles, Andrade Neves e destas pela Gomes Carneiro até a 15 de Novembro..

Às 2 horas da madrugada todo o dispositivo do ataque e, a cavalo, iniciou a operação, com retardamento decorrente de dois incidentes superados, mas considerados providenciais, para o ataque não ser percebido .por ronda governista.

Ao clarear do dia os revolucionários atingiram a Tablada, na atual região nas Três Vendas. Ao centro ia o General Zeca Netto com seu Estado - Maior, tendo como assistente Dario Crespo, seu companheiro de barraca (derancho) que relatou esta operação em 4 artigos no Correio do Povo, em novembro e dezembro de 1962 e em abril de 1963, cinco anos depois do livro de Cel Aldo Ladeira Ribeiro, do qual, no ano dos citados artigos doou exemplar ao Dr Raul Azambuja, que foi intendente de Canguçu de 1921 a 1924.Localidade que foi ocupado 4 vezes pela Coluna Zeca Netto. De 15/24 março, depois de 19/21 abril, em 7 jul e a seguir em 19 julho quando ocorreu o combate do Cerro Partido no dia anterior. Depois entre 11 e 14 agosto acampou em Canguçu Velho quando ali ocorreu o combate de Canguçu Velho .

 

O início efetivo do ataque a Pelotas

Avançando para o ataque, segundo Dario Crespo, "um sinal luminoso riscou o céu dando a impressão que cairia sobre nós. A luz foi tão intensa que o nosso cavalo chegou a espantar-se, saltando para o lado. Era uma estrela cadente, na qual alguns viram um sinal de vitória e outros de agouro". E Zeca Netto lhe bateu e no ombro e falou: -"A cidade de Pelotas é nossa, os céus estão prenunciado."

Quase no mesmo instante ouviu-se a primeiras descargas. E a luta duraria cerca 5 horas. O Posto de Comando revolucionário foi estabelecido no antigo Hotel Colonial, na rua Manduca Rodrigues"( atual largo do Vernetti) e a ligação entre os destacamentos lançados ao ataque, foi feito por assistente de Zeca Netto.

Visão na época do Pavilhão da Sociedade Agrícola Pastoril. Objetivo do ataque Principal revolucionário. Fonte: Arquivo do acadêmico Flávio Azambuja Kremer, da Academia Canguçuense de História.

 

Aspecto na época da Escola de Artes e Ofícios que abrigava homens do 1 o Corpo Provisório da Brigada Militar. Fonte: Arquivo do acadêmico Flávio Azambuja Kremer, da Academia Canguçuense de História.

 

Os ataques atingiram de surpresa seus objetivos quase ao mesmo tempo.

A Intendência e o 1º Posto Policial foram envolvidos pela atual praça Pedro Osório e rua Andrade Neves, em meio a intensa fuzilaria. Os revolucionários procuravam abrigo nos bancos de ferro da praça ou deitados nos seus canteiros de onde atiravam sobre a Intendência e seu fogo era respondido.

Na rua Andrade Neves foi atingido mortalmente o revolucionário Major Manoel Batista Gomes junto com o seu cavalo.

Pouco depois o comandante governista Capitão Francisco Jesus Vernetti, vice intendente, foi ferido de morte, a bala, por um revolucionário adolescente de 15 anos, fato que os governistas, içando uma bandeira branca, pediram uma trégua para transportar o Capitão Vernetti para uma farmácia defronte ao 1 o Posto Policial e um pouco mais tarde para a Beneficência Portuguesa, onde ele não resistiu a delicada intervenção cirúrgica. Vernetti era médium espírita. Nascera em Boqueirão, em São Lourenço. Era muito estimado. Sua memória é reverenciada em nome de rua no Jardim Europa, no Areal, e é patrono do Centro Espírita no bairro N.S de Fátima, na Avenida Cidade do Rio Grande n o 541.E permanece no Largo do Vernetti, a rua Professor Araujo.

 

A rendição dos defensores da Intendência e do 1 o Posto, mas não os defensores na Sociedade Agrícola

Depois de 5 horas de resistência, os governistas que defendiam a Intendência e o 1o Posto Policial renderam-se sendo lavrada Ata na Intendência de ocupação revolucionária de Pelotas e Zeca Netto enviou telegrama ao Presidente do Brasil, comunicando o seu feito, como a que insistir que houvesse uma intervenção federal n Estado.

Na área do aquartelamento da Sociedade Agrícola, (área da atual Consulati e da antiga Escola de Artes e Ofícios), região da Escola Técnica, o ataque foi pressentido por uma sentinela que deu o alarme e travou-se intenso duelo a bala.

As grades de ferro da Sociedade Agrícola protegiam os defensores que ali se alojavam. E pelas janelas laterais da Escola de Artes e Ofícios os defensores despejavam intensa fuzilaria. Entre os atingidos pelo fogo, foi o comandante revolucionário Tenente Coronel Conca. E tombou mortalmente o comandante governista Major Aldrovando de Andrade Leão, atingido pelos revolucionários e mais seu irmão Tenente Henrique e o seu ajudante o Alferes Utaliz. O Capitão Álvaro Escobar foi ferido por um projetil que atravessou o seu pescoço, mas continuou lutando .Assumiu o comando o Capitão Orlando Cruz, que não se rendeu na defesa da Sociedade Agrícola, segundo comunicação do intendente Coronel Pedro Osório ao Presidente Borges de Medeiros em que escreveu:

"O Major Aldrovando caiu mortalmente ferido, com o tempo apenas de passar o comando ao bravo Capitão Orlando Cruz."

 

O Capitão Orlando Cruz omitido em descrições do ataque

Orlando Cruz não aparece nos artigos do Correio do Povo escritos por Dario Crespo, mas foi ele que redigiu a parte do combate, publicada em 1953 pelo Cel Aldo Ladeira Ribeiro, ( Juiz da Côrte de Apelação da Justiça do Estado) em seu Esboço Histórico da Brigada Militar do RGS, a mais rica em fontes primárias deste evento e inclusive a comunicação do Intendente Cel Pedro Osório ao Dr Borges de Medeiros.

Em nosso Canguçu reencontro com a História,com apoio em jornal de Piratini da década de 20, escrevemos sobre ele o que o Cel Pedro Osório confirmou:

"Em 1923, em Pelotas o mais tarde Coronel Orlando Cruz teve de assumir o comando de uma unidade( 1o Corpo de Provisórios),por morte em combate de seu comandante(Major Aldrovando Leão) ocasião em que foi promovido a major.

A imprensa de Pelotas criou em torno de seu nome uma legenda, em razão da coragem e bravura reveladas no comando de seu posto na Sociedade Agrícola, o único que não rendeu-se, em reação ao ousado feito do General Zeca Neto de tomar Pelotas.

Em razão disto assumiu o cargo de intendente de Canguçu de 1924/28, passando o cargo a seu substituto, sendo promovido a Ten. Cel e assumindo o comando do 19 o Corpo Auxiliar da Brigada Militar, operando com o mesmo em Canguçu, Piratini e fronteiras do Uruguai e Argentina contra revolucionários de 1924/26 .Reassumiu a Intendência de Canguçu em 5 de novembro 1925..Ao final de 1926 deixou a Intendência por curto período para organizar o 12 o Corpo Auxiliar da Brigada Militar."

História e verdade e justiça!. Aqui o repomos no seu lugar na História .O conheci quando menino e usando peças de seu uniforme de provisório o chapéu de abas largas e seu culote.

 

Outros detalhes do ataque revolucionário

 

Ao iniciar a ataque o Major Aldrovando se encontrava em casa e atravessou as linhas revolucionárias, disfarçado de oficial do Exército . E assumiu o comando da reação, sendo atingido em seguida mortalmente e substituído pelo Capitão Orlando Cruz, por indicação do Major Aldrovando. E ao Capitão Orlando Cruz repetimos, coube redigir a circunstanciada parte de combate publicada na citada obra de Aldo Ladeira Ribeiro no citado Esboço Histórico da Brigada Militar do RGS (p.184).como comandante interino do 1o Corpo Provisório e seu Fiscal. .

O contingente do Coronel Coriolano de Castro avançou até a Ponte de Pedra sobre o arroio Santa Bárbara e tomou posição no paredão da Cervejaria Ritter, defronte a Praça dos Enforcados e nas ruas em torno da Usina da Light e Pavilhão da Sociedade Agrícola. Ali ele secundou o Tenente Coronel Conca.

Na Ponte de Pedra foi atingido o Capitão Zeno Zielinski, que atirava de fuzil Mauser da ponte, sobre os governistas . Foi quando um tiro de fuzil atingiu a coronha de sua arma e a estilhaçou, sendo atingido no rosto pelos estilhaços e seu chapéu foi perfurado. Foi ferido neste episódio o Capitão Egídio Rosa, de Piratini.


O quartel do Corpo de Bombeiros na época com seu equipamento contra incêndio. Fonte: Arquivo do acadêmico Flávio Azambuja Kremer, da Academia Canguçuense de História
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O Coronel Lenidas com pessoal de Canguçu principalmente das famílias Moreira Mattos e Prestes coube atacar o Corpo de Bombeiros.

Para alcançar o objetivo esta força atravessou a trote largo as ruas Paissandu, Argolo, Marechal Deodoro, General Telles e Andrade Neves guiados pelo Capitão Ovídeo Batista.

Os atacantes em posição na esquina fronteira ao Quartel dos Bombeiros romperam fogo que durou cerca de uma hora.

Finalmente a força governista ao comando do Tenente Luis Felipe Albarahy, que teve um braço fraturado ao pular um muro, rendeu-se. A rendição foi conseguida sob a ameaça de incêndio do local. Os atacantes segundo divulgaram, prenderam os defensores e apreenderam muitas armas e munições enviadas de Porto Alegre, destinadas às forças governistas dos municípios vizinhos de Pelotas. Alguns atacantes teriam sido feridos.

Um grupo de canguçuenses que participou do assalto ao Corpo de Bombeiros. Da esquerda para a direita: Valdemar Moreira Mattos, Djalma Moreira Mattos, Neco Lemos, Boaventura Centeno, Alvim Dias, Alteçor Almeida,( avô do prefeito de Canguçu Odilon Almeida Meskó), Tarcílio Eneias Moreira Mattos ( pai do acadêmico da ACANDHIS, Moacyr Mattos) e José Moreira Mattos(pai do historiador do IHGPel, Mario Barbosa Mattos).Fonte: Arquivo de Cairo Moreira Pinheiro, acadêmico da ACANDHIS.

 

O Coronel Leônidas dali destacou o Major Alteçor Almeida para auxiliar os atacantes da Sociedade Agrícola e Escola de Artes e Ofícios.

E o Capitão Campolino Pereira foi destacado com um grupo para tomar o Posto Policial na Praça da Alfândega, no Porto, o que logrou sucesso depois de ligeira resistência.

O comandante deste posto e alguns de seus homens feridos escaparam pelo Canal São Gonçalo e se internaram nas ilhas do Malandro e da Samambaia.

As 10 horas da manhã o General Zeca Netto , com apoio em contingente que conseguiu reunir avançou a trote largo, na direção da Praça da República para tomar a Intendência.

 

A inesperada reação de um Posto Policial desconhecido

 

Em caminho, na rua Paissandu, foi feita uma descarga na direção do General Zeca Netto partido de um Posto Policial(no atual Albergue Noturno rua Padre Felício). Este foi atacado e respondeu com violento fogo ,sob a proteção de um muro muito alto. Ai Zeca Netto blefou com ordem para e incendiá-lo .Um popular ouvindo isto correu a avisar os defensores do posto dizendo que se entregassem senão morreriam queimados E os defensores gritaram segundo ainda Zeca Neto ."Se nos garantem as vidas nos entregamos.!" E se entregaram, sendo recolhidas as suas aramas e colocados em liberdade.

Neste ataque o Coronel Plínio Monte foi ferido levemente na mão esquerda.

Removida esta resistência o General Zeca Netto rumou para a Intendência, sendo aclamado por onde passava e em delírio na Praça da República( atual Pedro Osório) onde foram recebidos com discursos.

 

Zeca Netto toma a Intendência com lavratura de Ata e nela hasteia a Bandeira Nacional

 

O General Zeca Netto boleou a perna de seu zaino escuro e subiu as escadas da Intendência tendo sido o seu ponche cortado em suas franjas por senhoras e moças, como lembrança.

Zeca Netto a concluir-se de Dario Crespo estava consciente de estar reeditando o feito de seu tio General Antônio Netto de conquistar Pelotas na Revolução Farroupilha.

Na Intendência o General Zeca Netto hasteou a Bandeira Nacional. Em seguida em seu Salão Nobre foi lavrada a Ata de tomada de Pelotas. E mais "foi passado em seu nome um telegrama ao Presidente da Republica Dr Arthur Bernardes de que uma coluna revolucionária havia se apoderado da 2a cidade do Estado." Isto visava tentar que o Rio Grande do Sul fosse alvo de uma intervenção federal.

E no Pavilhão da Sociedade Agrícola a ala do Corpo Provisório ao comando do Capitão Orlando Cruz oferecia resistência, entrincheirado.

E o General Netto, segundo Dario Crespo, não autorizou ataque ao 1 o Corpo Provisório "em razão do objetivo político revolucionário ter sido conquistado, ou seja, a tomada simbólica de Pelotas e a resistência na Sociedade Agrícola estar isolada e cercada. Era preciso poupar sangue. "

A tomada espetacular de Pelotas chamou a atenção do Brasil para os revolucionários quando o Ministro da Guerra se encontrava em sua missão de paz na Região Serrana rumo a Porto Alegre e a força do Cel Juvêncio Lemos se encontrava em Piratini.

O ataque militar a Pelotas completou seu objetivo político: chamar a atenção de forma espetacular sobre o regime político gaúcho inspirado no Positivismo e sem alternância no poder. Mas O Dr Borges de Medeiros continuaria no poder até 1927,sendo substituído por Getúlio Vargas.

 

A retirada revolucionária de Pelotas

As 16 horas, a força atacante foi reunida. E em seguida foram até o Comandante da Guarnição Federal, neutra na disputa, para entregar-lhe Pelotas a sua guarda e proteção. A recebeu o Tenente Coronel Arthur Cantalice, comandante do 9º BC (atual 9º BIMtz).

O 9º BC durante o ataque e tomada de Pelotas, como neutra, guardava as repartições federais, os bancos e a Usina da Light.

Revolucionários protegeram o Diário Popular para que não fosse empastelado, por seus adeptos em Pelotas,

A Coluna Zeca Netto comportou-se com disciplina e correção. Os abusos correram por conta de alguns provisórios que fora denunciados ao comandante da 3a Região Militar pelo comandante do 9o BC. Rendidos os defensores e tomadas suas armas, eram colocados em liberdade sob o compromisso de não pegarem em armas contra os revolucionários.

A Coluna do General Zeca Netto foi reunida na Tablada, próximo do atual Aeroporto, ao entardecer. E dali ela partiu rumo a São Lourenço do Sul indo acampar sob a proteção da serra. O General Zeca Netto e comitiva jantaram na casa comercial de Carlitos Brauner, retornando ao acampamento as 20 horas, onde foram visitados pelo comandante do 9º Batalhão de Caçadores Tenente Coronel Arthur Cantalice.

Em 30 de outubro, as 10 horas, a Coluna Zeca Netto levantou acampamento rumo a localidade de Camaquã, onde residia o General Zeca Netto, Ali sua coluna, que se encontrava mais forte do que no inicio da Revolução, foi dissolvida em decorrência da Paz de Pedras Altas.

 

Os mortos e feridos e presas de guerra tomadas em Pelotas

 

A Coluna Zeca Netto, segundo Dario Crespo teve 4 mortos e 17 feridos nesta operação e, por outro lado, arrecadou bom material bélico, além de 160 cavalos e 102 arreios.

Segundo o intendente Cel Pedro Osório, em telegrama ao Dr Borges de Medeiros, "os revolucionários levaram dos postos policiais 82 fuzis Mauser, que haviam sido cedidos pelo 1o Corpo Provisório; 300 fuzis Mannlichers, sem munição e em mau estado; 30 fuzis Comblain inservíveis e, 6.000 tiros de vários calibres. Também levaram a cavalhada dos postos policiais e inclusive de alguns particulares, e algum armamento destes.

Nos jornais A União Republicana e Diário Popular foram quebrados os vidros e inutilizados alguns móveis. O elemento adversário pelotense auxiliou materialmente os invasores avolumando a impetuosidade do ataque.... a minha impressão é que as forças de Zeca Netto era de 400 homens, mais ou menos, bem montados e armados. Os nossos mortos foram 11, sendo o Tenente Vernetti sub intendente do 1o Distrito e 3 oficias, o Major Aldrovando, o tenente Henrique Leão e o alferes Utalis Soares .E mais um guarda municipal e 6 soldados do 1o Corpo Provisório. Os inimigos tiveram muitas baixas, e levaram alguns feridos.

Na cidade calcula-se 40 mortes de ambos os lados .Foram mortos 4 transeuntes e feridos 7, inclusive 4 mulheres."

O Cel Juvêncio Lemos contara na véspera 235 revolucionários que segundo ele foram reforçados no ataque por alguns pelotenses que se juntaram aos atacantes .Seu cálculo coincidiu com o que afirmou Zeca Netto.

A residência do intendente Cel Pedro Osório foi cercada, mas ele foi respeitado e nenhuma ação foi feita contra ele..

Faltou aos defensores de Pelotas acionarem suas informações para detectar um ataque a Pelotas. E se não o fizeram foi talvez por terem substimado a capacidade dos revolucionários, desprezando informes que Zeca Netto iria atacar Pelotas, quando deveriam ter lançado postos avançados de vigilância e patrulhas sobre a prováveis vias de acesso a Pelotas. Mas não fizeram .E isto se entende pois não eram profissionais em Arte Militar. De outro lado Netto sabia que o Cel Juvêncio se encontrava em Piratini onde dera 3 dias de descanso a seus homens .E creio que Zeca Netto foi o introdutor do grampo telefônico, pois possuía em sua tropa um elemento que subia nos postes telefônicos e com m telefone escutava as comunicações do governo com sua tropa.

Mas foi preciso deixar Pelotas depois deste feito, por não possuir condições de equipamento e material bélico para enfrentar a força estadual em seu encalço, ao comando do Cel Juvêncio Maximiano Lemos. E para compensar a inferioridade bélica ele tinha que andar escapando a encontros decisivos para continuar chamando a atenção do Brasil para a sua causa.

Foi o que faria a seguir a célebre Coluna Miguel Costa/Prestes, impropriamente chamada Coluna Prestes, segundo ele próprio. Coluna que percorreu o Brasil, mantendo- se em campo e fazendo grande propaganda da causa que defendia que iria desaguar na vitoriosa Revolução de 1930 liderada por Getúlio Vargas,na qual o Rio Grande ficou de pé pelo Brasil.

 

Traços do perfil militar de Zeca Netto

Um grupo revolucionário integrante do Estado – Maior do General Zeca Netto .Fonte: História do Exército Brasileiro, v.3.p. 895 ss.

 

Ele estudou em Porto Alegre no Colégio de Fernando Ferreira Gomes e ali foi impregnado pela cultura romana e por sua destacada figuram militar Júlio César, o conquistador das Gálias .No Rio de Janeiro para onde seguiu aos 16 anos, depois da Guerra do Paraguai, onde dois tios seus lutaram, o paterno Gen Antônio Netto e o materno Ten Cel Theóphilo de Souza Mattos que la comandou os Guardas Nacionais de Canguçu. Naquele ambiente no Rio de vitória militar ele estudou no Colégio Barão de Thaupheus, um curso preparatório para a Escola Central do Exército, ao Curso de Engenharia Civil que freqüentou por menos de uma ano. E ali tomou contato com a problemática militar do Brasil.

E nestas escolas e ambientes tomou contato com os grandes capitães da História Militar Mundial: César, Alexandre, Aníbal e Napoleão, conforme referiu em suas Memórias .Assim Zeca Netto não poderia ter tido melhores inspirações militares. E mais importante era a sua consciência dos feitos de seu tio General Antônio Netto de que herdara o Antônio de seu nome e com o qual convivera e tinha 15 anos quando ele morreu na Guerra do Paraguai..

Zeca Netto usava muito a expressão obliquar a direita ou a esquerda, denominação que acreditamos tenha colhido da Arte Militar grega que passou a revolucionar o emprego de suas falanges quando elas passaram a adotar a ordem obliqua com sucesso. Ordem obliqua usada pela primeira vez pelo General Epaminondas, de Tebas nas batalhas de Leutras no ano 371 antes de Cristo e na de Mantinéia, .no ano 366 antes de Cristo, revolucionando assim a Arte Militar. Formação que passaria a ser a preferida de Alexandre o Grande. E Zeca Netto percebeu esta mudança e daí o usar a expressão obliquar a direita ou a esquerda.

O general Zeca Netto ao referir-se com respeito e admiração a bravura dos defensores de Pelotas mortos na ação, lembrava de certo modo seu tio General Antônio Netto que admirava a coragem e a bravura fosse de quem fosse e mandou sua tropa desfilar em continência ao corpo do Cel do Exército Gabriel Gomes pela bravura revelada em combate em Triunfo, em 18 de agosto de 1838, "e que escolheu morrer de espada em punho numa batalha desigual do que render-se a rebeldes."

General Zeca Netto e seu cavalo durante a operação que culminou com a sua espetacular tomada de Pelotas em 29 de outubro de 1923, com a idade de 72 anos, vindo a falecer aos 94 anos em 1948. Fonte: História do Exército Brasileiro, v.3.p. 895 ss.

 

 

Fontes consultadas para a presente interpretação e consultáveis para a obtenção de mais detalhes sobre o assunto

BENTO, Claudio Moreira, Cel. A Revolução de 1923 em Canguçu in: Canguçu reencontro com a História. Porto Alegre: IEL, 1983 ( Aborda os combates do Cerro Partido e Canguçu Velho e dados biográficos dos canguçuenses General Zeca Netto, Cel Juvêncio Lemos , Cel Orlando Cruz e Cel Genes Gentil Bento).

 

(______) General Zeca Netto. Traços do seu perfil militar. Revista do Clube Militar jan/ fev 1984, p. 31/33 e jornal Tradição do MTG, nº 112, mai 1983.

 

(______) A 3º Região Militar na Revolução de 1923, in: História da 3ª Região Militar Porto Alegre: 3ª RM, 1995, p. 252 ( Cmt do 9º BC de Pelotas faz denuncias contra soldados provisórios em Pelotas).

 

(______) A Guerra a Gaúcha. in: Regionalismo Sul. Rio Grandense. Porto Alegre: CIPEL, 1996, p. 127/134 ( Organizadora Ilda Hubner Flores. Zeca Netto praticou este tipo de guerra).

 

(______) Gen José Antônio Netto in: O Exército Farrapo e os seus chefes. Rio de Janeiro BIBLIEX, 1992, v. 1 .

 

(______) Real Feitoria do Linho Cânhamo de Rincão do Canguçu 1783-1789. Canguçu; Prefeitura Municipal, 1992.( localização a Real Feitoria em Canguçu Velho, local do mais violento combate da Revolução de 1923).

 

(______) Canguçu na História Militar in: Canguçu 200 anos. Resende: ACANDHIS, 2000, p. 62/72.

 

(______) Canguçu História Militar: Revista dos 200 anos de Canguçu. Resende: ACANDHIS, 2000, p.93.

 

(______) Zeca Netto na expedição para livrar Bagé do sitio federalista - O massacre federalista em Rio Negro em 28 nov. 1893. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. nº 370, jan/ mar 1993.

 

CRESPO, Dario. O ataque é tomada de Pelotas pelo General Zeca Netto. Correio do Povo, Porto Alegre, 18 nov 1962.

 

(______) A Clara manhã de 29 outubro, Correio do Povo, Porto Alegre, 25 nov 1962.

 

(______) Os objetivos da tomada de Pelotas Correio do Povo, Porto Alegre, 2 dezembro 1962.

 

(______) O ataque a tomada de Pelotas. Correio do Povo. Porto Alegre, 16 abr 1963.

 

CRUZ, Orlando. Parti de combate da ala do 1º Corpo Provisório, ocupante da Sociedade Agrícola de Pelotas, como seu comandante interino na defesa ali de seu posto .Vide livro do Cel Aldo Ladeira Ribeiro sobre a Brigada Militar.

 

ENDERLE, Lauro. Morre na defesa da cidade o Tenente Vernetti. Diário da Manhã. Pelotas 29 outubro 1983.( publica retrato do tem Vernetti).

 

ESCOBAR , Álvaro Ávila, cap. Parte como oficial de dia do 1º Esquadrão do 1º Corpo Provisório no dia 28 outubro, divulgada por Dario Crespo, em seu artigo no Correio do Povo, de 14 abril 1963.

 

ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO. Revolução de 1923 in: História do Exército Brasileiro Rio de Janeiro SERGRAF / IBGE, 1972. V. 3.p.895/904.

 

FERREIRA FILHO, Arthur. Ação revolucionário no Sul - Ocupação de Pelotas in: Revolução de 23. Porto Alegre: Imprensa do Estado, 1973. p. 85/88 ( não considerou em seu trabalho o do Cel Aldo Ladeira Ribeiro editado e, 1953)

 

(______) Hipólito Ribeiro Filho e Zeca Netto in: Revolução e caudilhos. Porto Alegre, 1970, p. 77 e 252.

 

FRANCO, Sérgio da Costa. A Paz de Pedras Altas, Porto Alegre: UFRGS, 1993.

 

FORTINI, Arquimedes. Revivendo o passado. Correio do Povo, ( Aborda a sua visão do ataque a Pelotas citando nome dos participantes)

 

LEMOS, Amadeu Amâncio, cap med Brigada Militar. Seu diário pessoal como integrante, em 1923, do atual do 2o RC da Brigada Militar de Santana e que foi criado por seu pai em 1913, o canguçuense Coronel Juvêncio M. Lemos. Regimento que hoje leva o seu nome. Diário de que me foi cedida cópia por seu filho e amigo nosso e escritor ,o Cel Ex Juvêncio Saldanha Lemos Diário que resgata o que era a vida em campanha de uma unidade da Brigada Militar que atuou nos vales dos rios Turvo, Prata e Antas, na colônia italiana. Diariamente registra quantas léguas a sua força se deslocou.

 

MATTOS NETTO, José Antônio ( Zeca Netto). Memórias Porto Alegre. Martim Livreiro.1983.p.97/103.

 

MOREIRA, Angelo Pires ,maj. 29 de outubro: a ação militar de Zeca Netto. Diário Popular,Pelotas, 29 outubro 1923.

 

OSORIO, Pedro Luiz da Rosa cel. Telegrama como intendente de Pelotas ao presidente Dr Borges de Medeiros, sobre a tomada da cidade em 29 out 1923 pela coluna do General Zeca Netto .Vide o livro do Cel Aldo Ladeira sobre a Brigada Militar. p. 189.

 

RIBEIRO, Aldo Ladeira, cel. Esboço Histórico de Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1953.( Exemplar doado ao Dr Raul Azambuja e doado a seu neto Flávio Azambuja Kremer proprietário do Armazém Literário Cel Claudio Moreira Bento em Pelotas. Contém a parte de combate do dia 29 outubro, do Capitão Orlando Cruz Fiscal do 1º Corpo de Provisórios e seu comandante interino sobre o ataque a Sociedade Agrícola e telegrama do intendente Cel Pedro Osório ao Presidente do Estado Dr Borges de Medeiros. São duas importantes primárias p. 183/191.)

 

SCHOEDER, Celso. A Revolução de 1923. RIHGRGS, Ano 20.

 

 

(x) Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil(AHIMTB), do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul e da Academia Canguçuense de História ( ACANDHIS)